Patologias da Coluna

Síndrome de Bertolotti: O Que É, Sintomas e Tratamento

Guia completo para entender e tratar a síndrome de Bertolotti.

A síndrome de Bertolotti é uma causa pouco lembrada de dor lombar, especialmente em jovens e adultos que convivem com desconforto persistente sem uma explicação clara.

Ela aparece quando existe uma vértebra de transição lombossacra e, além disso, essa alteração anatômica realmente se relaciona com a dor.

Nem toda pessoa com essa variação vai ter sintomas. O problema começa quando a anatomia muda a mecânica da coluna, sobrecarrega estruturas vizinhas e passa a gerar lombalgia, dor no glúteo, rigidez ou até irradiação atípica.

Entender essa diferença evita dois erros comuns: tratar a imagem como se fosse doença, ou ignorar um achado importante que pode explicar a dor.

O que é a síndrome de Bertolotti

A síndrome de Bertolotti acontece na transição entre a última vértebra lombar e o sacro. Em muitos casos, o processo transverso de L5 é maior do que o habitual e encosta, forma uma pseudoarticulação ou se funde parcialmente ao sacro ou ao ilíaco.

Essa alteração é congênita, ou seja, a pessoa nasce com ela. O nome “síndrome” só faz sentido quando há correlação entre sintomas, exame físico e exames de imagem.

Em resumo, há três ideias importantes aqui:

  • Existe uma vértebra de transição lombossacra.
  • Essa variação pode mudar a distribuição de carga na coluna e na pelve.
  • A síndrome só é confirmada quando essa mudança explica o quadro doloroso.

Por isso, um laudo com “LSTV” ou “vértebra de transição” não basta sozinho. Muitos pacientes têm esse achado e nunca sentem nada.

Por que essa alteração pode causar dor

A dor não nasce sempre do mesmo ponto. Em algumas pessoas, o principal gerador é a pseudoarticulação. Em outras, o problema aparece nas facetas, na articulação sacroilíaca, no disco acima da transição ou até por compensações musculares.

Quando a mobilidade da região lombossacra muda, o corpo tenta se adaptar. Esse ajuste pode até funcionar por um tempo, mas também pode aumentar a sobrecarga em áreas vizinhas, sobretudo no nível acima, como L4-L5.

É por isso que alguns pacientes descrevem uma dor bem localizada na lombar, enquanto outros sentem desconforto na nádega, no quadril ou na virilha. Quando há componente neural, podem surgir formigamento, queimação ou dor irradiada.

Sintomas mais comuns e quando suspeitar

O quadro costuma ser confundido com lombalgia mecânica comum. Ainda assim, alguns sinais ajudam a levantar a suspeita, principalmente quando a dor é persistente e os tratamentos genéricos não resolvem de verdade.

O padrão mais comum é dor lombar unilateral ou mais forte de um lado, com piora ao ficar muito tempo em pé, sentado, em extensão do tronco ou em movimentos repetidos.

Atletas, pessoas com rotina física intensa e quem trabalha em posições mantidas podem perceber isso mais cedo.

Os sintomas mais frequentes são:

Quando há perda de força, dormência importante, alterações urinárias ou intestinais, febre, emagrecimento sem explicação ou dor após trauma, a avaliação médica não deve esperar.

Esses sinais não confirmam Bertolotti, mas exigem investigação rápida de outras causas.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico da síndrome de Bertolotti não depende de um exame isolado. Ele fica mais confiável quando junta história clínica, exame físico, imagem e, em alguns casos, bloqueio diagnóstico.

Na consulta, o ortopedista especialista em coluna com vasta experiência em casos complexos avalia o padrão da dor, os movimentos que pioram o quadro, a presença de rigidez, pontos dolorosos e sinais que sugiram participação da articulação sacroilíaca, das facetas ou de raiz nervosa.

Essa etapa é decisiva, porque a imagem sozinha não distingue bem quem tem apenas a variação anatômica de quem tem a síndrome.

Os exames mais usados são:

  • Radiografia lombossacra, que mostra a vértebra de transição;
  • Tomografia, útil para detalhar o osso e a pseudoarticulação;
  • Ressonância magnética, importante para avaliar discos, facetas, edema e compressão neural.

Em casos selecionados, o bloqueio com anestésico local ajuda bastante. Quando a dor melhora logo após a infiltração na estrutura suspeita, isso reforça a relação entre o achado anatômico e os sintomas.

Tratamento

O tratamento deve ser progressivo, buscando controlar a dor, reduzir a sobrecarga e devolver a função.

Na maioria dos casos, a primeira linha é conservadora. Procedimentos e cirurgia entram depois, quando existe dor persistente, falha das medidas iniciais e boa correlação entre sintomas e exames.

Medidas conservadoras

O início do tratamento combina ajustes de rotina, controle da dor e reabilitação. Repouso absoluto raramente ajuda, e muitas vezes atrasa a recuperação.

O que faz parte do plano:

  • Analgésicos e anti-inflamatórios por curto período, quando indicados;
  • Fisioterapia com foco em estabilização lombopélvica;
  • Fortalecimento de core e glúteos;
  • Melhora da mobilidade de quadril;
  • Reeducação de carga, postura e ergonomia;
  • Retorno gradual às atividades.

A fisioterapia funciona melhor quando sai do modelo passivo e entra num programa ativo, com progressão de movimentos e fortalecimento. O objetivo é aumentar tolerância à carga e reduzir recaídas.

Infiltração e radiofrequência

Quando a dor continua limitando a reabilitação, a infiltração guiada pode ser uma boa etapa. Ela pode ser usada tanto para aliviar os sintomas quanto para confirmar o gerador da dor.

Se houver boa resposta ao bloqueio, alguns casos também podem se beneficiar de radiofrequência.

Esse tipo de procedimento não serve para todos os casos, mas pode ajudar quando a dor vem de uma estrutura bem localizada e o tratamento conservador não foi suficiente.

Quando a cirurgia é considerada

A cirurgia fica reservada para pacientes bem selecionados. Ela é pensada quando a dor persiste por tempo prolongado, existe limitação funcional importante e a investigação mostra relação clara entre a anatomia e os sintomas.

As opções mais conhecidas incluem ressecção do processo transverso sintomático, descompressão em casos específicos e fusão quando há instabilidade ou degeneração significativa em níveis vizinhos.

Recuperação e cuidados no dia a dia

Depois do controle da crise, o foco passa a ser manutenção. A melhora é mais estável quando o paciente entende o que piora seus sintomas e aprende a dosar carga, treino e tempo sentado.

Alguns cuidados ajudam bastante:

  1. Manter rotina regular de exercícios.
  2. Evitar aumentos bruscos de carga.
  3. Fazer pausas em longos períodos sentado.
  4. Trabalhar mobilidade de quadril e força de tronco.
  5. Dormir bem e controlar peso corporal.

O mais útil é recuperar confiança e função, sem alternar entre excesso num dia e repouso total no outro.

Perguntas frequentes

A síndrome de Bertolotti é a mesma coisa que vértebra de transição?

Não. A vértebra de transição lombossacra é um achado anatômico congênito. Já a síndrome de Bertolotti é o quadro doloroso relacionado a essa alteração. Em outras palavras, muita gente tem a variação na imagem e nunca sente nada. O diagnóstico de síndrome só é feito quando o exame, a história e o padrão de dor combinam e apontam que aquela anatomia está, de fato, causando sintomas.

Qual exame confirma o diagnóstico?

Nenhum exame confirma tudo sozinho. A radiografia mostra a vértebra de transição, a tomografia detalha melhor o osso e a ressonância ajuda a avaliar disco, facetas e inflamação. Em casos bem selecionados, o bloqueio diagnóstico com anestésico local é uma peça importante, porque mostra se a dor realmente vem da estrutura suspeita e não de outra causa de lombalgia.

Existe CID específico para a síndrome de Bertolotti?

Não existe um CID universalmente usado como se fosse um código exclusivo e fechado para a síndrome de Bertolotti. Na prática, o enquadramento pode variar conforme o laudo, o sistema do serviço e a condição associada descrita no prontuário. Por isso, o código administrativo não substitui o diagnóstico clínico, nem define sozinho gravidade, incapacidade ou necessidade de tratamento.

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia entra em consideração quando a dor persiste apesar de fisioterapia bem feita, medicação, ajustes de rotina e, em alguns casos, infiltrações. Ela também exige boa correlação entre sintomas, imagem e testes diagnósticos. Nem toda vértebra de transição precisa de operação. Em geral, o procedimento é reservado para casos selecionados, com dor refratária e impacto funcional real na vida diária.

Exercício ajuda ou piora?

Na maioria dos casos, exercício ajuda, desde que seja bem escolhido e progressivo. O que pode piorar é insistir em carga alta, rotação repetida ou movimentos que irritam a região numa fase dolorosa. Programas com fortalecimento de core, glúteos, mobilidade de quadril e controle motor são mais úteis do que parar tudo. A chave é adaptar a fase do tratamento, e não abandonar o movimento.

A síndrome de Bertolotti tem cura?

Depende do que se entende por cura. A alteração anatômica congênita continua existindo, mas os sintomas podem melhorar muito e até desaparecer por longos períodos com tratamento adequado. Em vários pacientes, o controle vem com reabilitação, ajustes de carga e manejo da dor. Quando isso não basta, procedimentos e cirurgia podem ser discutidos. O principal objetivo é recuperar função e reduzir recaídas.

Dr. Aurélio Arantes

Especialista em ortopedia de coluna em Goiânia. Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC). Preceptor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do HC-UFG e membro da diretoria da SBOT Goiás.

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