Patologias da Coluna

Doença de Scheuermann: O Que é e Como Tratar

Entenda os sinais de alerta, as causas e como tratar a doença de Scheuermann.

Na doença de Scheuermann, a coluna pode ganhar um formato mais curvado durante o estirão da adolescência.

Isso acontece porque algumas vértebras crescem de maneira irregular, deixando a parte de cima das costas mais arredondada e o tronco levemente projetado para frente.

Muitas pessoas confundem esse quadro com má postura, mas não é a mesma coisa.

Na cifose postural, a curvatura é mais flexível e melhora quando a pessoa tenta se endireitar. Já na doença de Scheuermann, existe uma mudança no formato das vértebras, o que deixa a curva mais rígida.

Entender essa diferença faz toda a diferença no tratamento.

O ideal é buscar a orientação de um ortopedista especialista em coluna para avaliar os sintomas, pois, quando o problema é reconhecido cedo, fica mais fácil acompanhar a evolução, aliviar a dor e reduzir o risco de progressão.

O que é a doença de Scheuermann

A doença de Scheuermann, conhecida ainda como cifose de Scheuermann ou osteocondrose juvenil da coluna, é um tipo de hipercifose estrutural.

O problema está no crescimento de algumas vértebras. Elas não ficam tão retinhas como deveriam e acabam mais baixas na parte da frente, com formato parecido com uma cunha, favorecendo o aumento da curvatura da coluna, principalmente na região torácica.

O adolescente pode parecer mais curvado, com os ombros projetados para frente e dificuldade para corrigir a postura só com esforço voluntário.

Em alguns casos, a alteração aparece mais na transição entre a região torácica e a lombar, o que muda um pouco o padrão da dor.

Nem sempre o quadro é grave. Há pacientes com curva discreta, poucos sintomas e boa evolução com acompanhamento. Em outros, a deformidade progride, causa dor frequente e exige tratamento mais ativo.

É a mesma coisa que má postura?

Não. Essa é uma das dúvidas mais comuns.

A má postura pode piorar o desconforto e deixar a coluna com aparência mais arqueada, mas ela sozinha não explica a doença de Scheuermann. Nesse quadro, existe uma alteração real no desenvolvimento das vértebras durante o crescimento.

De forma simples, a diferença é:

  • Cifose postural: a coluna é mais flexível e tende a melhorar quando a pessoa se endireita.
  • Doença de Scheuermann: a curva é mais rígida e não corrige por completo só com esforço postural.

Essa distinção é confirmada com avaliação clínica e exames de imagem.

O que causa

A causa exata ainda não é totalmente definida. O que se sabe hoje é que a doença parece ser multifatorial, ou seja, não depende de um único motivo.

Há indícios de participação genética, o que ajuda a explicar por que algumas famílias têm mais de um caso. Além disso, fatores ligados ao crescimento ósseo e às cargas mecânicas sobre a coluna durante a adolescência também são estudados.

O mais importante aqui é evitar uma interpretação simplista. Não faz sentido culpar apenas o hábito de sentar torto, usar celular ou carregar mochila.

Esses fatores podem piorar a dor e sobrecarga, mas não explicam, sozinhos, a deformidade estrutural típica da doença.

Principais sintomas

Os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra. Alguns adolescentes percebem primeiro a mudança no formato das costas, enquanto outros procuram avaliação por dor.

Os sinais e sintomas mais comuns são:

  • Aumento da curvatura na parte alta das costas.
  • Postura encurvada que não corrige totalmente.
  • Dor nas costas, principalmente após muito tempo sentado, em pé ou durante atividade física.
  • Rigidez na coluna.
  • Fadiga muscular.
  • Encurtamento dos músculos posteriores da coxa e da região peitoral.

Em quadros mais acentuados, a deformidade pode afetar a mecânica do tronco e trazer limitação funcional. Casos com falta de ar, sintomas neurológicos ou dor intensa são menos comuns, mas merecem investigação cuidadosa.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa com a história clínica e o exame físico. A avaliação observa o alinhamento da coluna, a flexibilidade da curva, a presença de dor, rigidez e encurtamentos musculares.

Depois disso, as radiografias em pé confirmam o quadro. O critério clássico inclui o encunhamento de pelo menos 5 graus em três vértebras consecutivas, além de alterações como irregularidade das placas terminais e aumento da cifose.

Em situações específicas, a ressonância magnética pode ser solicitada quando há dor importante, suspeita de compressão neurológica, dúvida diagnóstica ou planejamento cirúrgico.

Esse passo é essencial porque nem toda hipercifose em adolescente é cifose de Scheuermann. Existem casos posturais, congênitos e outras causas que exigem condutas diferentes.

Tratamento conservador

Na maioria dos casos, o tratamento começa sem cirurgia. A escolha depende da idade, do grau da curva, da presença de dor, da maturidade esquelética e da progressão da deformidade.

As medidas conservadoras podem incluir observação periódica, adaptação de atividades, fisioterapia e controle da dor. O objetivo não é apenas “endireitar as costas”, mas reduzir os sintomas, melhorar a função e evitar piora durante o crescimento.

A fisioterapia foca em:

  • Fortalecimento da musculatura extensora da coluna e do tronco.
  • Melhora do controle postural.
  • Alongamento de peitorais e isquiotibiais.
  • Ganho de mobilidade onde isso é possível.
  • Orientação para rotina, estudo, esporte e ergonomia.

Exercícios bem indicados ajudam bastante, principalmente quando há dor, cansaço muscular e perda de condicionamento.

Mas é importante alinhar a expectativa: exercício não muda sozinho uma deformidade estrutural já estabelecida da mesma forma que muda uma postura inadequada.

Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser usados em fases dolorosas, sempre com orientação médica. Em paralelo, ajustes na rotina esportiva podem ser úteis quando certas atividades pioram os sintomas.

Quando o colete pode ser indicado

O uso de colete é considerado em adolescentes que ainda estão em fase de crescimento e apresentam curva moderada ou progressiva, pois pode ajudar a frear a piora enquanto o esqueleto ainda está amadurecendo.

Em geral, essa estratégia faz mais sentido quando o diagnóstico é feito antes do fim do crescimento. A indicação, o tipo de órtese e o tempo de uso variam conforme o caso.

Esse ponto merece uma conversa franca com a família. O colete exige adesão, rotina e acompanhamento. Quando bem indicado, pode ser uma ferramenta útil, porém, quando mal indicado, tende a gerar frustração.

Quando a cirurgia entra em discussão

A cirurgia não é a regra. Ela fica reservada para situações selecionadas, como deformidades graves, progressivas ou associadas a dor importante e limitação.

De modo geral, a cirurgia pode ser considerada quando há:

  • Curva acentuada.
  • Progressão apesar do tratamento conservador.
  • Dor persistente e relevante.
  • Prejuízo funcional importante.
  • Alteração neurológica.
  • Comprometimento respiratório em casos graves.

Os limites de grau variam conforme a fonte e o contexto clínico, mas costuma-se tratar sem cirurgia a maior parte dos casos abaixo de 70° a 75°.

A discussão cirúrgica ganha mais força em curvas maiores, frequentemente acima de 80° a 90°, ou antes disso quando os sintomas são marcantes.

O procedimento mais usado envolve correção do alinhamento e artrodese da coluna. A meta não é apenas melhorar a aparência no raio-X, mas equilibrar melhor o tronco, controlar a progressão e aliviar sintomas.

Como toda cirurgia de coluna, exige indicação cuidadosa, planejamento e conversa transparente sobre riscos, benefícios e recuperação.

Como é o prognóstico

O prognóstico é bom quando o diagnóstico é feito no momento certo e o acompanhamento é regular. Muitos adolescentes conseguem controlar a dor, manter a rotina e chegar ao fim do crescimento com estabilidade do quadro.

Mesmo assim, é importante entender que a curva nem sempre desaparece. Em muitos pacientes, uma parte da deformidade permanece, mas sem grande impacto funcional.

O objetivo do tratamento é evitar progressão relevante e reduzir o peso clínico do problema na vida diária.

Em adultos, a doença também pode ser identificada mais tarde, principalmente quando a pessoa conviveu anos com “má postura” e dor nas costas sem investigação adequada.

Nesses casos, o foco é o manejo da dor, função e avaliação da rigidez da curva.

Quando procurar um ortopedista de coluna

Procure avaliação se houver:

  • Dor nas costas recorrente em adolescente.
  • Aumento visível da curvatura.
  • Rigidez importante.
  • Piora progressiva da postura.
  • Dificuldade para se endireitar.
  • Dor que atrapalha esporte, escola ou sono.
  • Sintomas como formigamento, fraqueza ou falta de ar.

Esses sinais não significam, por si só, um caso grave, mas indicam que vale examinar melhor.

Perguntas frequentes

A doença de Scheuermann tem cura?

Depende do que se entende por cura. A deformidade estrutural nem sempre volta totalmente ao formato normal, mas o quadro pode ser controlado com bons resultados. Em muitos pacientes, é possível aliviar a dor, melhorar a função e impedir progressão relevante.

Quem tem doença de Scheuermann pode fazer atividade física?

Na maior parte das vezes, sim. A atividade física faz parte do tratamento, desde que adaptada ao caso. Em fases de dor ou em curvas mais importantes, alguns esportes e cargas podem precisar de ajuste temporário.

A doença piora com o tempo?

Ela tende a evoluir durante o crescimento, por isso o acompanhamento na adolescência é tão importante. Depois da maturidade esquelética, muitos casos estabilizam, embora a dor e a rigidez possam continuar em alguns pacientes.

Adulto também pode ter esse diagnóstico?

Sim. O mais comum é que o problema comece na adolescência, mas nem todo mundo recebe o diagnóstico nessa fase. Alguns adultos só descobrem a causa da hipercifose e da dor anos depois.

Dr. Aurélio Arantes

Especialista em ortopedia de coluna em Goiânia. Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC). Preceptor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do HC-UFG e membro da diretoria da SBOT Goiás.

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