No meu dia a dia na clínica ortopédica em Goiânia, atendo muitas pessoas preocupadas com uma protuberância na região superior das costas, conhecida como corcunda no pescoço.
Essa alteração, definida como hipercifose torácica, surge de maneira gradual e pode estar relacionada a diferentes causas, como má postura, acúmulo de gordura ou até algumas doenças específicas.
Meus pacientes frequentemente chegam com dores, desconfortos e dúvidas sobre os motivos que levaram ao surgimento desse problema na coluna.
O objetivo deste conteúdo é apresentar informações relevantes sobre o tema, abordando fatores de risco, avaliação clínica e possibilidades de tratamento.
O que define a corcunda no pescoço
A chamada corcunda no pescoço, também conhecida como “corcunda de viúva” ou “coxim de gordura dorso-cervical”, corresponde a uma curvatura excessiva na região superior das costas, logo abaixo do pescoço.
Além da questão estética, esse quadro pode provocar tensão muscular e dores constantes na coluna. Em vários casos, existe um acúmulo de gordura na base do pescoço, fator que contribui para a curvatura aparente.
A coluna vertebral apresenta curvaturas naturais, denominadas cifose e lordose, fundamentais para a estabilidade do corpo.
Quando esses arcos se tornam muito acentuados, ocorrem alterações posturais que podem comprometer a qualidade de vida.
Como ortopedista, percebo que a corcunda no pescoço surge, em boa parte dos casos, devido a problemas posturais, mas também pode estar vinculada a outras condições médicas que exigem avaliação detalhada.
Principais causas e fatores de risco
Com relação às causas e fatores de risco, posso destacar:
- Pessoas que passam horas em frente a computadores ou celulares, sem notar que o pescoço fica projetado para frente, favorecendo o surgimento da corcunda.
- Estágio avançado de osteoporose, o que pode deixar os ossos mais frágeis e facilitar a deformidade na região torácica.
- Casos associados à Síndrome de Cushing, na qual há excesso de cortisol no organismo, gerando depósito de gordura na base do pescoço.
- Idades mais avançadas, pois a perda de massa muscular e a redução na densidade óssea se tornam mais marcantes.
- Mulheres no período pós-menopausa, principalmente quando ocorrem mudanças hormonais.
Há cenários em que a pessoa, mesmo jovem, já manifesta essa protuberância. Isso pode ocorrer quando existem doenças congênitas ou um histórico de má postura desde cedo.
Adolescentes também podem desenvolver alterações nas curvaturas da coluna ao crescerem muito rápido, especialmente sem acompanhamento adequado de exercícios e reforço muscular.
Sinais e impactos no cotidiano
Os principais sinais de corcunda no pescoço são:
- Protuberância na região da base do pescoço, seguida de dores ao realizar movimentos mais amplos ou ao permanecer sentado por longos períodos.
- Incômodo para girar a cabeça ou erguer os braços acima da cabeça.
- Sensação de rigidez na parte superior das costas, dificultando atividades cotidianas, como olhar para os lados durante a direção de veículos.
A postura alterada também pode influenciar a respiração, já que a hipercifose torácica pode reduzir a capacidade de expansão dos pulmões.
Com o tempo, há risco de surgirem dores irradiadas para os braços ou formigamentos, consequência de possíveis compressões nervosas nos casos mais graves.
Em termos emocionais, alguns relatam desconforto estético e até redução na autoestima.
Como é feito o diagnóstico
A avaliação clínica inicia-se com a observação da postura, verificação do alinhamento da cabeça e dos ombros, e busca por regiões de tensão ou dor à palpação.
Costumo aplicar testes de mobilidade, pedindo que a pessoa mova o pescoço em várias direções, avaliando possíveis limitações e incômodos.
Analisar o histórico de hábitos diários é essencial, pois descobrir períodos prolongados no celular ou trabalhos em mesas mal ajustadas faz parte da investigação.
Em muitos casos, peço radiografias ou exames de imagem mais detalhados, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, se necessário, a fim de confirmar o grau de curvatura e identificar eventuais compressões.
Exames de sangue entram em cena quando suspeito de síndromes endócrinas, osteoporose ou condições inflamatórias.
Formas de tratamento e ajustes posturais
O tratamento da corcunda no pescoço requer foco na correção postural e no fortalecimento da musculatura responsável por sustentar a coluna:
- Sessões de fisioterapia voltadas para a reeducação postural, com ênfase em técnicas que alinham gradualmente a coluna.
- Alongamentos;
- Exercícios para fortalecimento de costas e abdômen, e atividades como Pilates, musculação específica ou natação.
Quando identifico uma condição subjacente, é fundamental tratar a raiz do problema. Em quem apresenta Síndrome de Cushing, por exemplo, o controle dos níveis hormonais se torna imprescindível.
Já em casos de osteoporose, a suplementação de cálcio e vitamina D, além de medicamentos específicos, pode auxiliar no ganho de densidade óssea.
Para indivíduos em sobrepeso ou obesos, a redução de gordura na região cervical através de dieta equilibrada e exercícios adequados contribui para diminuir a protuberância.
Cuidados no dia a dia e prevenção
A prevenção da corcunda no pescoço envolve conscientização sobre hábitos posturais desde cedo.
Veja algumas práticas recomendadas:
- Ajustes ergonômicos são essenciais para quem passa boa parte do dia em frente ao computador: a tela deve ficar ao nível dos olhos, os pés apoiados no chão e a cadeira precisa oferecer suporte à lombar.
- Pausas regulares para alongamentos, apoiando o pescoço contra o encosto e soltando os ombros.
- Para quem usa muito o celular, vale a pena segurar o aparelho na altura dos olhos, diminuindo o ângulo de inclinação.
- Pacientes mais velhos costumam se beneficiar de exercícios de fortalecimento e caminhadas regulares, pois isso auxilia na estabilidade postural.
A prática de esportes que estimulam diferentes grupos musculares é um grande aliado para prevenir a corcunda e outras deformidades na coluna.
Oriento buscar modalidades que proporcionem equilíbrio entre força e flexibilidade, unindo condicionamento físico a um trabalho global do corpo.
Conclusão
A corcunda no pescoço pode impactar não apenas a aparência, mas também a funcionalidade e a autoestima.
No meu trabalho como ortopedista, percebo que a maioria dos casos melhora com uma abordagem integrada, unindo exercícios, correção de hábitos e atenção a possíveis doenças subjacentes.
Cada paciente precisa ser avaliado individualmente, pois as causas variam e podem requerer soluções específicas.
É fundamental reforçar a importância de identificar sinais precoces e investir em cuidados que protejam a saúde da coluna.
O acompanhamento médico, aliado a intervenções fisioterapêuticas e ajustes ergonômicos, facilita a superação do desconforto e evita complicações.
Ao notar qualquer saliência ou dor na região do pescoço e das costas, buscar avaliação profissional é o melhor caminho para um tratamento eficaz.
Imagens: Créditos Freepik